Prêmio para mulher em Jerusalém

De Jerusalém Comentário de Sarah Japhet sobre as “Crônicas” ganha prêmio.

É muito raro um professor universitário transformar sua tese de doutorado num sucesso de público e ainda receber o maior prêmio de seu país em reconhecimento por sua contribuição à cultura. Sarah Japhet, 70 anos, professora emérita do Departamento de Bíblia da Universidade Hebraica de Jerusalém, conseguiu. Em abril, durante as comemorações do Iom Haatzmaut, ela foi condecorada com o Prêmio Israel de Bíblia O currículo de Sarah Japhet é brilhante: foi o primeiro sabra – homem ou mulher – a escrever uma tese de doutorado sobre a Bíblia em Israel e, dizem alguns, também foi a primeira mulher no mundo a lecionar sobre o Livro sagrado numa universidade. Atualmente, ninguém se forma em Estudos Bíblicos em Israel sem ter lido sua obra a respeito do Livro de Crônicas, Emunot U-Deot Be-Sefer Divrei Hayamim (traduzido para o inglês como The Ideology of the Book of Chronicles and Its Place in Biblical Thought ou A Ideologia do Livro de Crônicas e o seu Lugar no Pensamento Bíblico). A professora fez toda sua carreira na Universidade Hebraica de Jerusalém, mas também ensinou em Harvard e Berkeley, nos Estados Unidos. Quando decidiu se aposentar no início deste ano, a Universidade Hebraica simplesmente recusou seu pedido e ela continuará formando as novas gerações de pesquisadores da Bíblia. Japhet nasceu em Petach Tikva, de uma família de intelectuais que resolveram deixar os livros de lado para trabalhar na agricultura, como pioneiros. Descendente de rabinos, Japhet retomou a vocação familiar e aos 18 anos já lecionava para novos imigrantes. Hoje ela mora com o marido nos subúrbios de Jerusalém, tem quatro filhos e nove netos. Dizendo estar muito contente em poder falar para a comunidade judaica do Brasil, ela recebeu a revista Hebraica em sua casa, para uma entrevista que durou duas horas.Hebraica – Estudos da Bíblia é um campo tipicamente masculino. Como foi para uma mulher se impor neste meio há quarenta anos? Sarah Japhet – Várias colegas mulheres estudavam Bíblia comigo e todas sofríamos duas dificuldades: conciliar os estudos com as obrigações do lar e conseguir ser contratada por uma universidade. Se hoje alguém perguntar a meus colegas homens se há discriminação contra mulheres na universidade eles irão negar. Mas é claro que ainda existe. Agora que me aposentei, resta apenas uma mulher no Departamento de Bíblia da Universidade Hebraica, trabalhando meio período. Não culpo meus colegas por isso, pois acho que a discriminação acontece muito no plano inconsciente embora se um homem e uma mulher têm qualidades iguais e disputam um cargo na universidade, pode ter certeza que escolherão o homem. A única chance da mulher é se ela for melhor que o homem. Hoje está bastante em voga a abordagem feminista da Bíblia. O que sabemos sobre a situação da mulher em Israel antigo? Sarah Japhet – O status da mulher era muito baixo e é evidente que não faziam parte da vida intelectual. Apesar disto, algumas mulheres tiveram papéis importantes, como a juíza Débora, Miriam, havia as sábias que eram consultadas pelo povo e as proprietárias de terras. Podemos ter alguma idéia do mundo feminino nos tempos bíblicos por intermédio de livros como o Cântico dos Cânticos, que traz a perspectiva feminina de forma clara. Também a história da infância de Moisés é um assunto de mulheres, envolvendo a mãe, a irmã e a filha do Faraó. A Bíblia é um livro masculino? Sarah Japhet – A Biblia foi escrita por homens para ser lida por homens. No entanto, também encontramos no Livro uma filosofia de igualdade, principalmente no primeiro capítulo do Gênesis colocando homens e mulheres no mesmo nível. Mesmo estudando a Bíblia na universidade de forma acadêmica, a sra. acha que foi influenciada pelos valores morais e religiosos do Livro sagrado? Sarah Japhet – Esta é uma pergunta difícil. Não sou muito observante e do judaísmo pratico o que tenho vontade. Por exemplo, jejuo no Iom Kipur, faço o seder de Pessach e não trabalho no Shabat. Meu sistema de valores foi certamente influenciado pela Bíblia, mas não só por este livro. Também os ideais que trouxeram meus pais a Israel são importantes para mim. Ler a Bíblia de forma científica pode ser problemático para a fé de uma pessoa? Sarah Japhet – Estudar a Bíblia de forma crítica implica sempre um problema de fé. É fácil ser crítico quando o assunto é matemática ou biologia. Mas assumir uma posição crítica a partir do mesmo material em que você acredita o problema é inevitável. Quando alguém afirma que o mundo não foi criado há 5764 anos e sim há milhões de anos, já sugere algo não escrito na Bíblia. Podemos dizer que o Gênesis é uma metáfora. Nessa questão é relativamente fácil conciliar ciência e religião, mas em outras é mais difícil. Como é possível manter nossa fé na Bíblia sabendo que o Livro sagrado muitas vezes apresenta contradições e diferentes visões sobre um mesmo tema? Sarah Japhet – Os judeus sempre foram muito bons em aceitar a existência de várias opiniões sobre um mesmo tema e o Talmud é uma amostra disto. No entanto, a visão ortodoxa não aceita a existência de opiniões diferentes na Bíblia porque este livro é considerado a palavra de Deus, a corporificação da verdade. O que vemos na Bíblia é a existência de mais de uma opinião a respeito de quase tudo. Não tenho problemas quanto a isto e entendo a Bíblia como uma criação do povo judeu que expressa a vida, as visões e as experiências desse povo durante um longo tempo. Por isso, a Bíblia é multivocal, e não unívoca. Justamente esta multiplicidade me atrai. Não preciso de uma verdade absoluta. A questão da autoria da Torá continua dividindo ortodoxos e acadêmicos. Os primeiros afirmam que Moisés escreveu toda a Torá, e os últimos dizem que foram diferentes autores durante várias gerações. Conseguiremos um dia chegar a um consenso? Sarah Japhet – Não acho que os acadêmicos desistirão de sua abordagem, pois perderiam sua razão de ser. Um famoso provérbio judaico diz que após a destruição do Templo de Jerusalém, apenas os tolos e os loucos podem profetizar. Não consigo prever o fim deste conflito. Apesar de a Bíblia ter sido escrita por judeus, atualmente a maior parte dos estudiosos universitários são de origem cristã. Por quê? Sarah Japhet – A Bíblia sempre foi lida nas sinagogas, mas nunca foi muito estudada nas yeshivot, onde predominou a leitura do Talmud e da Halachá. Os estudos universitários da Bíblia foram iniciados por não-judeus no século 18 e hoje ela é mais intensamente estudada pelos protestantes. Nos Estados Unidos, há uma conferência anual sobre Bíblia da qual participam oito mil acadêmicos e, na Inglaterra, há duas conferências anuais. Enquanto isso, em Israel, não temos nada do tipo. O que a sra. indicaria para alguém do exterior interessado em vir a Israel estudar Bíblia? Sarah Japhet – Há departamentos de Bíblia em todas as grandes universidades israelenses. Mas, para mim, o curso da Universidade Hebraica de Jerusalém ainda é o melhor. Talvez eu seja uma “patriota” (risos). A polêmica atual é a arqueologia bíblica em Israel. O professor Israel Finkelstein, da Universidade de Tel Aviv, afirma que não há nenhuma evidência de que existiu um império no tempo de David e Salomão e, naquela época, Jerusalém era apenas um pequeno vilarejo. Algumas pessoas temem que estas afirmações possam ser levadas para a política e enfraqueçam as posições atuais do Estado de Israel a respeito de Jerusalém. Sarah Japhet – Este debate não começou em Israel, mas em universidades européias. Alguns pesquisadores disseram que se queremos estudar a história de Israel antigo, temos de ignorar as informações bíblicas. Eles só consideram como evidência histórica os achados da arqueologia, como inscrições em monumentos e outras desse tipo. Dizem, por exemplo, que se a arqueologia não descobriu nenhuma menção ao rei Salomão, então não podemos afirmar que ele existiu. O problema é que neste trem também embarcou gente carregando uma agenda política e usam isto como instrumento. A questão é como diferenciar os acadêmicos dos que usam pesquisas para fazer política. Qual a sua posição nesta polêmica? Sarah Japhet – Do ponto de vista acadêmico, este é um debate válido. Mas o problema de pesquisadores como Finkelstein é que, em resposta, eles jogam fora toda a Bíblia, o que não aceito. É preciso ver o que se pode e o que não se pode aceitar na Bíblia do ponto de vista histórico. Há pontos na Bíblia que devemos aceitar. Só ortodoxos têm a visão de ou aceitar tudo ou negar tudo. Pesquisadores na universidade têm de estudar esses assuntos com mais cuidado. O Livro de Crônicas não atrai muito o interesse do leitor comum da Bíblia. À primeira vista, parece apenas uma repetição das histórias já contadas nos livros de Samuel e Reis. Por que a sra. dedicou tantos anos de sua vida ao estudo das Crônicas? Sarah Japhet – Meu interesse é saber por que o autor de Crônicas quis reescrever a Bíblia. Se já existia o livro de Samuel e Reis, por que ele escreveu o mais longo livro da Bíblia para contar as mesmas histórias? A resposta é que ele não aceitou a narrativa anterior porque tinha outra visão. Samuel e Reis descreveram o Rei Davi de uma maneira tão diferente de Crônicas que até parece uma pessoa diferente. É um exemplo de que dentro da Bíblia há diferentes visões e modos de olhar para Deus e para a vida. Esta multiplicidade é, como a vida, sem dogmas. O novo filme de Mel Gibson, A Paixão de Cristo, trouxe novamente ao debate a questão do fundamentalismo e de se acreditar em cada palavra da Bíblia. Quais suas opiniões sobre o filme? Sarah Japhet – O filme ainda não chegou aqui. Mas pelo que li sobre Gibson, ele teve a pretensão de levar às telas a verdade histórica sobre Jesus. Gibson diz que assim aconteceu, enquanto, na verdade, este filme poderá apenas refletir o Novo Testamento segundo a interpretação dele. Na sociedade moderna há liberdade de expressão, portanto cada um diz o que pensa. Apenas me pergunto se é sábia uma abordagem deste tipo no mundo atual, com uma atmosfera já tão negativa e tanto derramamento de sangue.

Por Ariel Finguerman

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